domingo, 13 de setembro de 2009

Um Peixe de luz

Há muito que eu não tenho o que dizer, o que pensar, no que me focar. Há tempos que eu me transformei em um tipo que não reconheço, como um inseto que eu mesma desconheço, que acorda e vive em meu lugar todos os dias. Meu mar se transformou em lama, minha expectativa de ser humana se foi como vento, já desisti de tentar continuar nadando em um mar de merda. Como um peixe em uma gaiola de passarinhos, vejo uma liberdade mas não posso alcançá-la, ela não está no meu mundo, e eu estou fora de qualquer previsão do tempo. Se faz sol lá fora chove aqui dentro, não tenho casa, nem mesmo uma ponte, um abrigo.
Prazer e felicidade nem ao menos tentam se confundir, qualquer sentimento já desistiu de se instalar dentro da minha carcaça, qualquer coisa já desistiu de tentar qualquer coisa, eu mesma já desisti de desistir, minha existência se resume a seguir uma receita de bolo, solado e insosso.
Procuro por uma tentativa se me tornar apresentável, mas ao menos sei o motivo, engano-me, assim como faço com todos, com tudo, uma grande arapuca. Fantasmas se divertem com o estrago que causam, com a revolta do meu âmago sobre mim, com a vontade de explodir, de me tornar luz, poeira.
Um morto vivo, um zumbi, sim, acho que é isso. Um zumbi mergulhado em formol, a carne já não é suficiente. Não crê em nada pois seu cérebro já se tornou poeira, e durante o tempo que estava vivo acreditou em muitas coisas, agora apenas espera até que um dia, talvez, alguém lhe corte a cabeça.
Em que acreditar? Que todo o esgoto vai se tornar água limpa, que todo o lixo evaporará pelos ares?
Ainda não, acho que ainda não. Continuo sendo um peixe, algo sem importância.