sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O corpo que não está mais aqui

Olhei para uma maçaneta quebrada. Na verdade olhei tempo demais para algo que não faz o menor sentido.
Mas pra quê sentido? Por que as coisas devem fazer sentido, qual o sentido de tudo ter que fazer algum sentido?
Aquela maçaneta quebrada me chamou muita atenção, não só por ser algo sem utilidade e sentido, mas por ser algo lógicamente paradoxal.
A maçaneta era daquelas compridas, abre dos dois lados, e no seu estado de não-existência, era nada, apenas um cilindro metálico se desprendendo do orifício anal da porta. Curioso, eu estava do lado de dentro, pensei por um minuto estar presa - até que alguém abriu-a. Mesmo em sendo um cotoco, uma merda inutil, ela girava. Exercia a sua função de maçaneta, mesmo que apenas existisse ali a sua alma, a sua medula, e mais nada. Mesmo sendo nada, não estando mais ali, aquela maçaneta repugnante ainda exercia a sua função. Deficientemente, ainda trabalhava, ainda dotava de alguma, minima, produtividade. Mas sua função era inutil, já que, por uma questão lógica, a mola da porta teve que ser retirada. Mesmo com uma função inutil, ainda trabalhava e abria, de fato, alguma possibilidade, a porta.
Hipocrita. Mantém-se ali, ocupando um espaço, impondo-nos a pena, por sua deficiencia, mas sua função é nada, ela está às custas da outra maçaneta, que exerce decentemente sua função, merencendo ainda mais crédito - trabalhava por si mesma e pela sua companheira deficiente. Carrega o peso de ser apenas um peso, ninguém a deseja, ninguém vê motivos para que ela ainda esteja ali.
Pensei também em sua história, como foi quebrada, e depois como consiguiram livrar-se do desespero de não ter uma maçaneta, de não ter escapatória, a sensação de claustrofobia dentro daquela sala que, a cada segundo, sucumbe, diminui, engole-os. Quebraram, arrancando também, provavelmente à força, a mola da fechadura. Aquela maçaneta repugnante forçou a outro componente, tão importante quanto ela no funcionamento daquela máquina chamada porta, que precisa abrir caminhos,precisa impedir caminhos.
Quantas mãos já tocaram naquela maçaneta antes dela se tornar deficiente, inutil? Qual a história de cada mão, cada cada corpo, cada toque, cada medula, cada alma que um dia ousou encostá-la?
A maçaneta não é nada, não é mais um corpo, é uma lembrança, um corpo deficiente, entrege ao poder do outro, dependente do outro, hipócrita, um não-corpo culpado por ainda existir e ter que carregar todo o seu peso, sua inexistência física.
Ela ainda existe. Ela ainda está ali, apesar de não estar mais ali. Ela existe, mas sem um corpo. Ela existe, com culpa e sofrimento. Sofrer é a condição primeira de sua existência. Sem o sofrimento, a maçaneta seria apenas uma maçaneta qualquer, com uma função, beleza, brilho, independente. Sofrer pela carga Maldita maçaneta, você existe.