segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Desamor



Não, eu não o amo.
De fato, não amo ninguém, nem aquele que penso amar.
Não amo nem a mim mesma, a quem deveria amar acima de todas as coisas.
Não amo a natureza, não amo meus próximos, não amo ninguém, não amo.
Tento amar meu maço de cigarros, mas não consigo, não o amo.
Tento amar a tudo e a todos, mas não consigo.
Sinto paixão, sinto desejo, fixação, desespero, necessidade, mas não amor.
Quem somos nós para definir a quem ou a que devemos direcionar nosso amor?
Não amo, não quero amar.
Quero desamor, loucura, simples e pura paixão. É o desamor atemporal, ter tudo e ao mesmo tempo não ter nada, tê-lo e não tê-lo, ter a tudo e ao nada, pensar amar por um segundo, enquanto durar o nosso êxtase, e depois acender um cigarro, satisfeita, pois não nos amamos, não somos ninguém.
Fito-o por um segundo, e me pergunto como posso não amá-lo. Talvez apenas o queira do meu lado, sem amá-lo, apenas desejo-o.
Conte-me suas frustrações, conte-me sobre seus dias ruins, conte-me sobre seu choro, vou fingir que o amo, e espero que você acredite.
Não, eu não o amo, nem a você nem a nada nesse mundo. O amor destrói tudo, o amor impõe necessidades. Se por acaso um dia disser que te amo é simplesmente porque quero ouvir o mesmo.
Mas não me ame, eu não sou ninguém, não mereço.
Apenas fique perto de mim, que fingirei te amar, te darei o que precisa e, no final de tudo, acenderemos um cigarro.



terça-feira, 27 de outubro de 2009

Choro Preso


Minha vida é um grande choro preso.
Passam os dias e as noites, e o choro sempre preso.
Nenhuma evolução, nenhum avanço, nenhuma novidade, é tudo a mesma coisa de sempre, às vezes pior.
O tempo está abafado, mesmo com tanta chuva lá fora. As palavras já não são suficientes pra explicar o sentimento, seja ele qual for. Ruins ou bons, são tão transcedentais que se tornam inalcansáveis, metafísicos. Quando raivosos, ultrapassam os limites humanos, apenas a moral impede de se tornarem algo maior e mais concreto.
Ah, a moral. Quem diria que um dia a nossa sociedade ia sucumbir completamente aos limites da moral. Os sentimentos humanos presos dentro de conchas metálicas, a natureza limitada ao pré-estabelecido.
Presos, sempre presos.
Minha raiva, minha tristeza, minha ansiedade, minha felicidade. Presos, dentro da minha concha, dentro dos limites morais que eu mesma estabeleci para minha vida. Tão intensos, gritam em meu peito, sentem necessidade de conhecer o mundo, de voar pelos ares.
O meu choro não, ele continua preso. E cada dia maior.
Até o dia que ele explodir, aí o mundo se vai junto. Tudo se vai, não sobrará nada.
Assim espero.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Delírios Alcólicos

Queria poder te desenhar, mas não posso fazê-lo. Te desenho com palavras, palavras mortas de um boêmio enegrecido.
Todo o nada que sou passa a ser tudo, já que você é meu tudo. Você é tudo aquilo que eu olho quando nada me prende a atenção.
A única coisa que quero é poder continuar olhando para o horizonte e vendo seu rosto. Por um momento pensei deixar de amá-lo, mas isso não é possivel, te vejo em todos os lugares, te enxergo em todos os espelhos, é você aqui quando eu fecho os olhos.
Te procuro, mas quase nunca te encontro, sempre te vejo na minha mente, solitária como a de um lobo sem amor, eu sou um lobo cego que tefareja com exatidão, quero sempre poder encontrá-lo e arrancar cada pedaço do seu corpo.
Longe de teus braços não sou nada, ninguém. Você é meus sonhos, você é minha música.

(Cerveja e vodka misturadas)

domingo, 13 de setembro de 2009

Um Peixe de luz

Há muito que eu não tenho o que dizer, o que pensar, no que me focar. Há tempos que eu me transformei em um tipo que não reconheço, como um inseto que eu mesma desconheço, que acorda e vive em meu lugar todos os dias. Meu mar se transformou em lama, minha expectativa de ser humana se foi como vento, já desisti de tentar continuar nadando em um mar de merda. Como um peixe em uma gaiola de passarinhos, vejo uma liberdade mas não posso alcançá-la, ela não está no meu mundo, e eu estou fora de qualquer previsão do tempo. Se faz sol lá fora chove aqui dentro, não tenho casa, nem mesmo uma ponte, um abrigo.
Prazer e felicidade nem ao menos tentam se confundir, qualquer sentimento já desistiu de se instalar dentro da minha carcaça, qualquer coisa já desistiu de tentar qualquer coisa, eu mesma já desisti de desistir, minha existência se resume a seguir uma receita de bolo, solado e insosso.
Procuro por uma tentativa se me tornar apresentável, mas ao menos sei o motivo, engano-me, assim como faço com todos, com tudo, uma grande arapuca. Fantasmas se divertem com o estrago que causam, com a revolta do meu âmago sobre mim, com a vontade de explodir, de me tornar luz, poeira.
Um morto vivo, um zumbi, sim, acho que é isso. Um zumbi mergulhado em formol, a carne já não é suficiente. Não crê em nada pois seu cérebro já se tornou poeira, e durante o tempo que estava vivo acreditou em muitas coisas, agora apenas espera até que um dia, talvez, alguém lhe corte a cabeça.
Em que acreditar? Que todo o esgoto vai se tornar água limpa, que todo o lixo evaporará pelos ares?
Ainda não, acho que ainda não. Continuo sendo um peixe, algo sem importância.


quarta-feira, 4 de março de 2009

Falta

Sabe do que eu sinto falta? De tudo!
Sinto falta principalmente de mim mesma, de quando tinha uma vida, de quando tinha o que fazer.
O que me sobra não serve já que todo o resto me falta. Me sobra tempo, posso fazer o que quiser. Ou poderia, caso não me faltasser todo o resto necessário para poder gozar de todo o meu tempo livre.
Me falta disposição, inclusive, para correr atras de qualquer coisa. É chato isso, sabia!?
Sempre foi assim na minha vida - esperar, esperar, esperar. E tudo em troco de nada. Espero tento pelas coisas que, quando finalmente chega a hora de tê-las, perco completamente o interesse.
A única coisa que faço é esperar. Espero sentada, espero sem ter esperanças. Só espero, numa estática que se movimenta continuamente na minha vida.

Meus amigos estão levando suas vidas - empregos, mestrados, relacionamentos... Todos correndo atras do que acreditam que lhes darão um futuro digno. Boa sorte para todos. Não, eu realmente desejo boa sorte. Quero ver todos bem, alguns ricos, outros casados e com relacionamentos felizes, ou fora do país, como todos desejam. E fico feliz por eles, eles sabem exatamente o que querem! E é disso que eu tenho inveja - não de suas riquezas ou relacionamentos ou qualquer outra coisa. Apenas da capacidade de discernir o que para eles é o futuro ideal.
Não sei o que quero! Não sei se quero riqueza, se quero muito conhecimento, se quero muitos romances ou uma família linda. Realmente não sei o que quero pra minha vida, da minha vida ou com a minha vida. Me falta coragem, me falta mais determinação (ou alguma).

Todas as minhas resoluções para um ano novo foram por agua a baixo, percebi que não desejava nada daquilo. Desejo só ter o que fazer.
Talvez.
Sei que falta alguma coisa, mas não sei ainda o que é.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Plenamente Solidão


(...)


O senhor gostará que eu lhe conte que ontem me fiz bonita, dentro de meus limites de possibilidades. Fui a um salão de beleza, resisti heróicamente ao assédio de uma máquina ruidosa e gigante, (que a todo momento lembrava-me uma gigantesca corôa). Caminhei de cabeça erguida, assumindo a atitude da mulher que se julga bela, olhei de frente as pessoas que me encaravam e senti que - enfim - estava sendo seguida. Gostaria que o senhor fotografasse meu íntimo e surpreendesse minha alegria interior. Um homem qualquer - sem a sua negra e espesa barba - fazia percursos de pensamentos em torno de mim. Eu sei. Eu sei o que o senhor esta pensando agora. que - pelo menos me pesquisou - jamais tive necessidade de ser admirada como mulher e que certamente minha satisfação era fictícia e que minha vaidade conseguia abliterar o resto de raciocínio que ainda tenho. Engana-se, doutor.
Não quero emoçoes novas. Não me envaideceria por ter um homem - belo exemplar de animal, aliás - em meu encalço. Alegrava-me o fato de haver a possibilidade de estar se aproximando de mim o fim de minha incoersível solidão. Aquele homem de quem apenas pressentia a aproximação e e percebia a camisa negra, poderia ser uma caixa de ressonância onde minhas palavras não resvalassem ou se perdessem. Eu poderia
aceitar o seu assédio mudo e insistente.
Teria o direito de perguntar simplesmente, embora anciosa:
- Você é um homem inteligente? Será Capaz de me ouvir? E mais que ouvir, me entender?
Imagine, doutor, se ele disese que sim? Poderia dali responder pelos meus atos? Ah! não, doutor. Não seja homem agora. Volte a ser minha bússola e não insista em dizer - ou pensar - que no íntimo eu estava desejando a aventura, o homem, o corpo com o qual eu poderia misturar o meu e compor minha necessária e urgente sinfonia. Sou capaz de jurar que nem por uma fração de segundo essa idéia me possuiu. Não estou mascarando a realidade, doutor.
(...) Plenamente Solidão, Edna Savaget.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Tic-tac

ODEIO relógios.
Sério. Detesto ouvir o tic-taquear dos relógios ecoando na minha cabeça, me dando a impressão de que cada segundo é uma eternidade, de que cada ângulo que aquele relógio se movimenta é um século na minha vida que passa rápido e rasteiro, me derrubando e trazendo cabelos brancos na minha cabeça.

Até os relógios digitais me irritam.
Eles são como pessoas sonsas, o tempo corre do mesmo jeito, só que disfarçado, sem o tic-tac.

O tempo corre, os dias passam, até a lua vai e volta e vai e volta denovo. E você não percebe, não sente nada, até que, de repente, tudo acontece muito rápido e, quando você menos espera, seus cabelos estão brancos, sua pele está ressecada, seus peitos caídos e suas mãos, eternamente enrugadas.

E o relógio digital não te deixa sentir que o tempo passa.
E os outros te fazem sentir que o tempo pássa rápido demais.

Tem um relógio bem aqui na minha frente fazendo tic-tac, tic-tac, tic-tac. Sem parar nem por um segundo sequer, não me deixa respirar, me deixando nervosa.

Há 20 anos atrás eu era um bebê. Agora, sou uma mulher, uma cavalona. Daqui há 20 anos, serei uma quarentona, uma loba. Depois, vou me tornando mais e mais animais diferentes, passando por mutações mais e mais absurdas. Quem sabe um dia não me torno uma fênix, surgindo das cinzas e voltando aos meus ciclos animalescos?

Eu fico pensando no que o tempo vai fazer comigo. Não só comigo, eu estou vendo as pessoas que eram novas quando eu era criança se tornarem velhas e enrugadas. Mas há alguma beleza, claro.
Dizem que o tempo é a única coisa que cura qualquer coisa. Mas eu não sei não, heim.
É difícil encarar isso tudo com naturalidade quando o tempo se torna um inimigo, passa passa e eu continuo estática. O tempo muda o muindo e eu nada.

Ainda continuo condenada a sentir o tic-tac, a merda do tic-tac.