Minha vida é um grande choro preso. Passam os dias e as noites, e o choro sempre preso. Nenhuma evolução, nenhum avanço, nenhuma novidade, é tudo a mesma coisa de sempre, às vezes pior. O tempo está abafado, mesmo com tanta chuva lá fora. As palavras já não são suficientes pra explicar o sentimento, seja ele qual for. Ruins ou bons, são tão transcedentais que se tornam inalcansáveis, metafísicos. Quando raivosos, ultrapassam os limites humanos, apenas a moral impede de se tornarem algo maior e mais concreto. Ah, a moral. Quem diria que um dia a nossa sociedade ia sucumbir completamente aos limites da moral. Os sentimentos humanos presos dentro de conchas metálicas, a natureza limitada ao pré-estabelecido. Presos, sempre presos. Minha raiva, minha tristeza, minha ansiedade, minha felicidade. Presos, dentro da minha concha, dentro dos limites morais que eu mesma estabeleci para minha vida. Tão intensos, gritam em meu peito, sentem necessidade de conhecer o mundo, de voar pelos ares. O meu choro não, ele continua preso. E cada dia maior. Até o dia que ele explodir, aí o mundo se vai junto. Tudo se vai, não sobrará nada. Assim espero.
Queria poder te desenhar, mas não posso fazê-lo. Te desenho com palavras, palavras mortas de um boêmio enegrecido. Todo o nada que sou passa a ser tudo, já que você é meu tudo. Você é tudo aquilo que eu olho quando nada me prende a atenção. A única coisa que quero é poder continuar olhando para o horizonte e vendo seu rosto. Por um momento pensei deixar de amá-lo, mas isso não é possivel, te vejo em todos os lugares, te enxergo em todos os espelhos, é você aqui quando eu fecho os olhos. Te procuro, mas quase nunca te encontro, sempre te vejo na minha mente, solitária como a de um lobo sem amor, eu sou um lobo cego que tefareja com exatidão, quero sempre poder encontrá-lo e arrancar cada pedaço do seu corpo. Longe de teus braços não sou nada, ninguém. Você é meus sonhos, você é minha música.
Há muito que eu não tenho o que dizer, o que pensar, no que me focar. Há tempos que eu me transformei em um tipo que não reconheço, como um inseto que eu mesma desconheço, que acorda e vive em meu lugar todos os dias. Meu mar se transformou em lama, minha expectativa de ser humana se foi como vento, já desisti de tentar continuar nadando em um mar de merda. Como um peixe em uma gaiola de passarinhos, vejo uma liberdade mas não posso alcançá-la, ela não está no meu mundo, e eu estou fora de qualquer previsão do tempo. Se faz sol lá fora chove aqui dentro, não tenho casa, nem mesmo uma ponte, um abrigo.
Prazer e felicidade nem ao menos tentam se confundir, qualquer sentimento já desistiu de se instalar dentro da minha carcaça, qualquer coisa já desistiu de tentar qualquer coisa, eu mesma já desisti de desistir, minha existência se resume a seguir uma receita de bolo, solado e insosso.
Procuro por uma tentativa se me tornar apresentável, mas ao menos sei o motivo, engano-me, assim como faço com todos, com tudo, uma grande arapuca. Fantasmas se divertem com o estrago que causam, com a revolta do meu âmago sobre mim, com a vontade de explodir, de me tornar luz, poeira.
Um morto vivo, um zumbi, sim, acho que é isso. Um zumbi mergulhado em formol, a carne já não é suficiente. Não crê em nada pois seu cérebro já se tornou poeira, e durante o tempo que estava vivo acreditou em muitas coisas, agora apenas espera até que um dia, talvez, alguém lhe corte a cabeça.
Em que acreditar? Que todo o esgoto vai se tornar água limpa, que todo o lixo evaporará pelos ares?
Ainda não, acho que ainda não. Continuo sendo um peixe, algo sem importância.
Sabe do que eu sinto falta? De tudo! Sinto falta principalmente de mim mesma, de quando tinha uma vida, de quando tinha o que fazer. O que me sobra não serve já que todo o resto me falta. Me sobra tempo, posso fazer o que quiser. Ou poderia, caso não me faltasser todo o resto necessário para poder gozar de todo o meu tempo livre. Me falta disposição, inclusive, para correr atras de qualquer coisa. É chato isso, sabia!? Sempre foi assim na minha vida - esperar, esperar, esperar. E tudo em troco de nada. Espero tento pelas coisas que, quando finalmente chega a hora de tê-las, perco completamente o interesse. A única coisa que faço é esperar. Espero sentada, espero sem ter esperanças. Só espero, numa estática que se movimenta continuamente na minha vida.
Meus amigos estão levando suas vidas - empregos, mestrados, relacionamentos... Todos correndo atras do que acreditam que lhes darão um futuro digno. Boa sorte para todos. Não, eu realmente desejo boa sorte. Quero ver todos bem, alguns ricos, outros casados e com relacionamentos felizes, ou fora do país, como todos desejam. E fico feliz por eles, eles sabem exatamente o que querem! E é disso que eu tenho inveja - não de suas riquezas ou relacionamentos ou qualquer outra coisa. Apenas da capacidade de discernir o que para eles é o futuro ideal. Não sei o que quero! Não sei se quero riqueza, se quero muito conhecimento, se quero muitos romances ou uma família linda. Realmente não sei o que quero pra minha vida, da minha vida ou com a minha vida. Me falta coragem, me falta mais determinação (ou alguma).
Todas as minhas resoluções para um ano novo foram por agua a baixo, percebi que não desejava nada daquilo. Desejo só ter o que fazer. Talvez. Sei que falta alguma coisa, mas não sei ainda o que é.
O senhor gostará que eu lhe conte que ontem me fiz bonita, dentro demeus limites de possibilidades. Fui a um salão de beleza, resisti heróicamente ao assédio de uma máquina ruidosa e gigante, (que a todo momento lembrava-me uma gigantesca corôa). Caminhei de cabeça erguida, assumindo a atitude da mulher que se julga bela, olhei de frente as pessoas que me encaravam e senti que - enfim - estava sendo seguida. Gostaria que o senhor fotografasse meu íntimo e surpreendesse minha alegria interior. Um homem qualquer - sem a sua negra e espesa barba - fazia percursos de pensamentos em torno de mim. Eu sei. Eu sei o que o senhor esta pensando agora. que - pelo menos me pesquisou - jamais tive necessidade de ser admirada como mulher e que certamente minha satisfação era fictícia e que minha vaidade conseguia abliterar o resto de raciocínio que ainda tenho. Engana-se, doutor. Não quero emoçoes novas. Não me envaideceria por ter um homem - belo exemplar de animal, aliás - em meu encalço. Alegrava-me o fato de haver a possibilidade de estar se aproximando de mim o fim de minha incoersível solidão. Aquele homem de quem apenas pressentia a aproximação e e percebia a camisa negra, poderia ser uma caixa de ressonância onde minhas palavras não resvalassem ou se perdessem. Eu poderia aceitar o seu assédio mudo e insistente. Teria o direito de perguntar simplesmente, embora anciosa: - Você é um homem inteligente? Será Capaz de me ouvir? E mais que ouvir, me entender? Imagine, doutor, se ele disese que sim? Poderia dali responder pelos meus atos? Ah! não, doutor. Não seja homem agora. Volte a ser minha bússola e não insista em dizer - ou pensar - que no íntimo eu estava desejando a aventura, o homem, o corpo com o qual eu poderia misturar o meu e compor minha necessária e urgente sinfonia. Sou capaz de jurar que nem por uma fração de segundo essa idéia me possuiu. Não estou mascarando a realidade, doutor.
ODEIO relógios. Sério. Detesto ouvir o tic-taquear dos relógios ecoando na minha cabeça, me dando a impressão de que cada segundo é uma eternidade, de que cada ângulo que aquele relógio se movimenta é um século na minha vida que passa rápido e rasteiro, me derrubando e trazendo cabelos brancos na minha cabeça.
Até os relógios digitais me irritam. Eles são como pessoas sonsas, o tempo corre do mesmo jeito, só que disfarçado, sem o tic-tac.
O tempo corre, os dias passam, até a lua vai e volta e vai e volta denovo. E você não percebe, não sente nada, até que, de repente, tudo acontece muito rápido e, quando você menos espera, seus cabelos estão brancos, sua pele está ressecada, seus peitos caídos e suas mãos, eternamente enrugadas.
E o relógio digital não te deixa sentir que o tempo passa. E os outros te fazem sentir que o tempo pássa rápido demais.
Tem um relógio bem aqui na minha frente fazendo tic-tac, tic-tac, tic-tac. Sem parar nem por um segundo sequer, não me deixa respirar, me deixando nervosa.
Há 20 anos atrás eu era um bebê. Agora, sou uma mulher, uma cavalona. Daqui há 20 anos, serei uma quarentona, uma loba. Depois, vou me tornando mais e mais animais diferentes, passando por mutações mais e mais absurdas. Quem sabe um dia não me torno uma fênix, surgindo das cinzas e voltando aos meus ciclos animalescos?
Eu fico pensando no que o tempo vai fazer comigo. Não só comigo, eu estou vendo as pessoas que eram novas quando eu era criança se tornarem velhas e enrugadas. Mas há alguma beleza, claro. Dizem que o tempo é a única coisa que cura qualquer coisa. Mas eu não sei não, heim. É difícil encarar isso tudo com naturalidade quando o tempo se torna um inimigo, passa passa e eu continuo estática. O tempo muda o muindo e eu nada.
Ainda continuo condenada a sentir o tic-tac, a merda do tic-tac.
'A liberdade duplica as forças e o valor do homem.' (General Dumouriez)
'A liberdade é a escola da inteligência.' (Godwin)
'O amor da liberdade deve ser, na frese bíblica, invencível como a morte; deve como o apóstolo ter a sede do inifnito; deve ser grande, como o universo que o contém.' (José Bonifácio)
'A liberdade e a saúde se parecem: não lhes concebemos bem o valor senão quando nos faltam.' (Henry Becque)
'Se gostas da liberdade, foges sempre do amor.' (Castilho)
'A liberdade é um vinho que embriaga e portanto é perigosa. O que é grande não é a liberdade, mas a luta para sua conquista.' (Grieg)
'Também a liberdade deve ser limitada, para ser possuída.' (Burke)
'A liberdade é como o movimento: não se define, demonstra-se.' (E. de Girardin)
'A liberdade é o direito de fazer tudo quanto não prejudique a liberdade dos outros.' (Turgot)
'Em geral, o primeiro uso que se faz da liberdade reconquistada é privar dela os outros.' (Gaston Boissier)
'O homem nasceu livre, e em todos os lugares ele está acorrentado.' (Jean-Jacques Rousseau)
'Quem pensa segundo a opinião dos outros, está muito longe de ser um homem livre.' (Autor desconhecido)
'A liberdade é defendida com discursos e atacada com metralhadoras.' (Carlos Drummond de Andrade)
'Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela.' (Autor desconhecido)
'Cada um tem a sua opinião de liberdade porém nenhuma pessoa tem noção do que ela é.' (Eduardo Lemos)
'A liberdade é um fato de experiência que não pode ser negado. Não se trata contudo de uma liberdade absoluta. Como tudo o que diz respeito só homem, ela é limitada e parcial.' (Ralph Waldo Emerson)
'Aqueles que negam liberdade aos outros não a merecem para si mesmos.' (Abraham Lincoln)
'A liberdade diminui à medida que o homem evolui e se torna civilizado.' (Salazar)
'A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere, e a estar sozinhos até no meio da multidão.' (Massimo Bontempelli)
'Não devemos acreditar na maioria que diz que apenas as pessoas livres podem ser educadas, mas sim acreditar nos filósofos que dizem que só as pessoas educadas são livres.' (Epiteto)
'O que fica de pé, se cair a liberdade?' (Kipling)
'Se você ama alguém, deixe-o livre.' (Sting)
'A liberdade é algo maravilhoso, mas não quando o preço que se paga por ela tem de ser a solidão.' (Bertrand Russel)
'O destino dos homens é a liberdade.' (Vinícius de Moraes)
'Não há excesso de liberdade se aqueles que são livres são responsáveis. O problema é liberdade sem responsabilidade.' (Milton Friedman)
'...Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo.' (Luis Fernando Veríssimo)