Olhei para uma maçaneta quebrada. Na verdade olhei tempo demais para algo que não faz o menor sentido.
Mas pra quê sentido? Por que as coisas devem fazer sentido, qual o sentido de tudo ter que fazer algum sentido?
Aquela maçaneta quebrada me chamou muita atenção, não só por ser algo sem utilidade e sentido, mas por ser algo lógicamente paradoxal.
A maçaneta era daquelas compridas, abre dos dois lados, e no seu estado de não-existência, era nada, apenas um cilindro metálico se desprendendo do orifício anal da porta. Curioso, eu estava do lado de dentro, pensei por um minuto estar presa - até que alguém abriu-a. Mesmo em sendo um cotoco, uma merda inutil, ela girava. Exercia a sua função de maçaneta, mesmo que apenas existisse ali a sua alma, a sua medula, e mais nada. Mesmo sendo nada, não estando mais ali, aquela maçaneta repugnante ainda exercia a sua função. Deficientemente, ainda trabalhava, ainda dotava de alguma, minima, produtividade. Mas sua função era inutil, já que, por uma questão lógica, a mola da porta teve que ser retirada. Mesmo com uma função inutil, ainda trabalhava e abria, de fato, alguma possibilidade, a porta.
Hipocrita. Mantém-se ali, ocupando um espaço, impondo-nos a pena, por sua deficiencia, mas sua função é nada, ela está às custas da outra maçaneta, que exerce decentemente sua função, merencendo ainda mais crédito - trabalhava por si mesma e pela sua companheira deficiente. Carrega o peso de ser apenas um peso, ninguém a deseja, ninguém vê motivos para que ela ainda esteja ali.
Pensei também em sua história, como foi quebrada, e depois como consiguiram livrar-se do desespero de não ter uma maçaneta, de não ter escapatória, a sensação de claustrofobia dentro daquela sala que, a cada segundo, sucumbe, diminui, engole-os. Quebraram, arrancando também, provavelmente à força, a mola da fechadura. Aquela maçaneta repugnante forçou a outro componente, tão importante quanto ela no funcionamento daquela máquina chamada porta, que precisa abrir caminhos,precisa impedir caminhos.
Quantas mãos já tocaram naquela maçaneta antes dela se tornar deficiente, inutil? Qual a história de cada mão, cada cada corpo, cada toque, cada medula, cada alma que um dia ousou encostá-la?
A maçaneta não é nada, não é mais um corpo, é uma lembrança, um corpo deficiente, entrege ao poder do outro, dependente do outro, hipócrita, um não-corpo culpado por ainda existir e ter que carregar todo o seu peso, sua inexistência física.
Ela ainda existe. Ela ainda está ali, apesar de não estar mais ali. Ela existe, mas sem um corpo. Ela existe, com culpa e sofrimento. Sofrer é a condição primeira de sua existência. Sem o sofrimento, a maçaneta seria apenas uma maçaneta qualquer, com uma função, beleza, brilho, independente. Sofrer pela carga Maldita maçaneta, você existe.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Desamor

Não, eu não o amo.
De fato, não amo ninguém, nem aquele que penso amar.
Não amo nem a mim mesma, a quem deveria amar acima de todas as coisas.
Não amo a natureza, não amo meus próximos, não amo ninguém, não amo.
Tento amar meu maço de cigarros, mas não consigo, não o amo.
Tento amar a tudo e a todos, mas não consigo.
Sinto paixão, sinto desejo, fixação, desespero, necessidade, mas não amor.
Quem somos nós para definir a quem ou a que devemos direcionar nosso amor?
Não amo, não quero amar.
Quero desamor, loucura, simples e pura paixão. É o desamor atemporal, ter tudo e ao mesmo tempo não ter nada, tê-lo e não tê-lo, ter a tudo e ao nada, pensar amar por um segundo, enquanto durar o nosso êxtase, e depois acender um cigarro, satisfeita, pois não nos amamos, não somos ninguém.
Fito-o por um segundo, e me pergunto como posso não amá-lo. Talvez apenas o queira do meu lado, sem amá-lo, apenas desejo-o.
Conte-me suas frustrações, conte-me sobre seus dias ruins, conte-me sobre seu choro, vou fingir que o amo, e espero que você acredite.
Não, eu não o amo, nem a você nem a nada nesse mundo. O amor destrói tudo, o amor impõe necessidades. Se por acaso um dia disser que te amo é simplesmente porque quero ouvir o mesmo.
Mas não me ame, eu não sou ninguém, não mereço.
Apenas fique perto de mim, que fingirei te amar, te darei o que precisa e, no final de tudo, acenderemos um cigarro.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Choro Preso

Minha vida é um grande choro preso.
Passam os dias e as noites, e o choro sempre preso.
Nenhuma evolução, nenhum avanço, nenhuma novidade, é tudo a mesma coisa de sempre, às vezes pior.
O tempo está abafado, mesmo com tanta chuva lá fora. As palavras já não são suficientes pra explicar o sentimento, seja ele qual for. Ruins ou bons, são tão transcedentais que se tornam inalcansáveis, metafísicos. Quando raivosos, ultrapassam os limites humanos, apenas a moral impede de se tornarem algo maior e mais concreto.
Ah, a moral. Quem diria que um dia a nossa sociedade ia sucumbir completamente aos limites da moral. Os sentimentos humanos presos dentro de conchas metálicas, a natureza limitada ao pré-estabelecido.
Presos, sempre presos.
Minha raiva, minha tristeza, minha ansiedade, minha felicidade. Presos, dentro da minha concha, dentro dos limites morais que eu mesma estabeleci para minha vida. Tão intensos, gritam em meu peito, sentem necessidade de conhecer o mundo, de voar pelos ares.
O meu choro não, ele continua preso. E cada dia maior.
Até o dia que ele explodir, aí o mundo se vai junto. Tudo se vai, não sobrará nada.
Assim espero.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Delírios Alcólicos
Queria poder te desenhar, mas não posso fazê-lo. Te desenho com palavras, palavras mortas de um boêmio enegrecido.
Todo o nada que sou passa a ser tudo, já que você é meu tudo. Você é tudo aquilo que eu olho quando nada me prende a atenção.
A única coisa que quero é poder continuar olhando para o horizonte e vendo seu rosto. Por um momento pensei deixar de amá-lo, mas isso não é possivel, te vejo em todos os lugares, te enxergo em todos os espelhos, é você aqui quando eu fecho os olhos.
Te procuro, mas quase nunca te encontro, sempre te vejo na minha mente, solitária como a de um lobo sem amor, eu sou um lobo cego que tefareja com exatidão, quero sempre poder encontrá-lo e arrancar cada pedaço do seu corpo.
Longe de teus braços não sou nada, ninguém. Você é meus sonhos, você é minha música.
(Cerveja e vodka misturadas)
Todo o nada que sou passa a ser tudo, já que você é meu tudo. Você é tudo aquilo que eu olho quando nada me prende a atenção.
A única coisa que quero é poder continuar olhando para o horizonte e vendo seu rosto. Por um momento pensei deixar de amá-lo, mas isso não é possivel, te vejo em todos os lugares, te enxergo em todos os espelhos, é você aqui quando eu fecho os olhos.
Te procuro, mas quase nunca te encontro, sempre te vejo na minha mente, solitária como a de um lobo sem amor, eu sou um lobo cego que tefareja com exatidão, quero sempre poder encontrá-lo e arrancar cada pedaço do seu corpo.
Longe de teus braços não sou nada, ninguém. Você é meus sonhos, você é minha música.
(Cerveja e vodka misturadas)
domingo, 13 de setembro de 2009
Um Peixe de luz
Há muito que eu não tenho o que dizer, o que pensar, no que me focar. Há tempos que eu me transformei em um tipo que não reconheço, como um inseto que eu mesma desconheço, que acorda e vive em meu lugar todos os dias. Meu mar se transformou em lama, minha expectativa de ser humana se foi como vento, já desisti de tentar continuar nadando em um mar de merda. Como um peixe em uma gaiola de passarinhos, vejo uma liberdade mas não posso alcançá-la, ela não está no meu mundo, e eu estou fora de qualquer previsão do tempo. Se faz sol lá fora chove aqui dentro, não tenho casa, nem mesmo uma ponte, um abrigo.
Prazer e felicidade nem ao menos tentam se confundir, qualquer sentimento já desistiu de se instalar dentro da minha carcaça, qualquer coisa já desistiu de tentar qualquer coisa, eu mesma já desisti de desistir, minha existência se resume a seguir uma receita de bolo, solado e insosso.
Procuro por uma tentativa se me tornar apresentável, mas ao menos sei o motivo, engano-me, assim como faço com todos, com tudo, uma grande arapuca. Fantasmas se divertem com o estrago que causam, com a revolta do meu âmago sobre mim, com a vontade de explodir, de me tornar luz, poeira.
Um morto vivo, um zumbi, sim, acho que é isso. Um zumbi mergulhado em formol, a carne já não é suficiente. Não crê em nada pois seu cérebro já se tornou poeira, e durante o tempo que estava vivo acreditou em muitas coisas, agora apenas espera até que um dia, talvez, alguém lhe corte a cabeça.
Em que acreditar? Que todo o esgoto vai se tornar água limpa, que todo o lixo evaporará pelos ares?
Ainda não, acho que ainda não. Continuo sendo um peixe, algo sem importância.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Falta
Sabe do que eu sinto falta? De tudo!
Sinto falta principalmente de mim mesma, de quando tinha uma vida, de quando tinha o que fazer.
O que me sobra não serve já que todo o resto me falta. Me sobra tempo, posso fazer o que quiser. Ou poderia, caso não me faltasser todo o resto necessário para poder gozar de todo o meu tempo livre.
Me falta disposição, inclusive, para correr atras de qualquer coisa. É chato isso, sabia!?
Sempre foi assim na minha vida - esperar, esperar, esperar. E tudo em troco de nada. Espero tento pelas coisas que, quando finalmente chega a hora de tê-las, perco completamente o interesse.
A única coisa que faço é esperar. Espero sentada, espero sem ter esperanças. Só espero, numa estática que se movimenta continuamente na minha vida.
Meus amigos estão levando suas vidas - empregos, mestrados, relacionamentos... Todos correndo atras do que acreditam que lhes darão um futuro digno. Boa sorte para todos. Não, eu realmente desejo boa sorte. Quero ver todos bem, alguns ricos, outros casados e com relacionamentos felizes, ou fora do país, como todos desejam. E fico feliz por eles, eles sabem exatamente o que querem! E é disso que eu tenho inveja - não de suas riquezas ou relacionamentos ou qualquer outra coisa. Apenas da capacidade de discernir o que para eles é o futuro ideal.
Não sei o que quero! Não sei se quero riqueza, se quero muito conhecimento, se quero muitos romances ou uma família linda. Realmente não sei o que quero pra minha vida, da minha vida ou com a minha vida. Me falta coragem, me falta mais determinação (ou alguma).
Todas as minhas resoluções para um ano novo foram por agua a baixo, percebi que não desejava nada daquilo. Desejo só ter o que fazer.
Talvez.
Sei que falta alguma coisa, mas não sei ainda o que é.
Sinto falta principalmente de mim mesma, de quando tinha uma vida, de quando tinha o que fazer.
O que me sobra não serve já que todo o resto me falta. Me sobra tempo, posso fazer o que quiser. Ou poderia, caso não me faltasser todo o resto necessário para poder gozar de todo o meu tempo livre.
Me falta disposição, inclusive, para correr atras de qualquer coisa. É chato isso, sabia!?
Sempre foi assim na minha vida - esperar, esperar, esperar. E tudo em troco de nada. Espero tento pelas coisas que, quando finalmente chega a hora de tê-las, perco completamente o interesse.
A única coisa que faço é esperar. Espero sentada, espero sem ter esperanças. Só espero, numa estática que se movimenta continuamente na minha vida.
Meus amigos estão levando suas vidas - empregos, mestrados, relacionamentos... Todos correndo atras do que acreditam que lhes darão um futuro digno. Boa sorte para todos. Não, eu realmente desejo boa sorte. Quero ver todos bem, alguns ricos, outros casados e com relacionamentos felizes, ou fora do país, como todos desejam. E fico feliz por eles, eles sabem exatamente o que querem! E é disso que eu tenho inveja - não de suas riquezas ou relacionamentos ou qualquer outra coisa. Apenas da capacidade de discernir o que para eles é o futuro ideal.
Não sei o que quero! Não sei se quero riqueza, se quero muito conhecimento, se quero muitos romances ou uma família linda. Realmente não sei o que quero pra minha vida, da minha vida ou com a minha vida. Me falta coragem, me falta mais determinação (ou alguma).
Todas as minhas resoluções para um ano novo foram por agua a baixo, percebi que não desejava nada daquilo. Desejo só ter o que fazer.
Talvez.
Sei que falta alguma coisa, mas não sei ainda o que é.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Plenamente Solidão

(...)
O senhor gostará que eu lhe conte que ontem me fiz bonita, dentro de meus limites de possibilidades. Fui a um salão de beleza, resisti heróicamente ao assédio de uma máquina ruidosa e gigante, (que a todo momento lembrava-me uma gigantesca corôa). Caminhei de cabeça erguida, assumindo a atitude da mulher que se julga bela, olhei de frente as pessoas que me encaravam e senti que - enfim - estava sendo seguida. Gostaria que o senhor fotografasse meu íntimo e surpreendesse minha alegria interior. Um homem qualquer - sem a sua negra e espesa barba - fazia percursos de pensamentos em torno de mim. Eu sei. Eu sei o que o senhor esta pensando agora. que - pelo menos me pesquisou - jamais tive necessidade de ser admirada como mulher e que certamente minha satisfação era fictícia e que minha vaidade conseguia abliterar o resto de raciocínio que ainda tenho. Engana-se, doutor.
Não quero emoçoes novas. Não me envaideceria por ter um homem - belo exemplar de animal, aliás - em meu encalço. Alegrava-me o fato de haver a possibilidade de estar se aproximando de mim o fim de minha incoersível solidão. Aquele homem de quem apenas pressentia a aproximação e e percebia a camisa negra, poderia ser uma caixa de ressonância onde minhas palavras não resvalassem ou se perdessem. Eu poderia aceitar o seu assédio mudo e insistente.
Teria o direito de perguntar simplesmente, embora anciosa:
- Você é um homem inteligente? Será Capaz de me ouvir? E mais que ouvir, me entender?
Imagine, doutor, se ele disese que sim? Poderia dali responder pelos meus atos? Ah! não, doutor. Não seja homem agora. Volte a ser minha bússola e não insista em dizer - ou pensar - que no íntimo eu estava desejando a aventura, o homem, o corpo com o qual eu poderia misturar o meu e compor minha necessária e urgente sinfonia. Sou capaz de jurar que nem por uma fração de segundo essa idéia me possuiu. Não estou mascarando a realidade, doutor.
(...) Plenamente Solidão, Edna Savaget.Não quero emoçoes novas. Não me envaideceria por ter um homem - belo exemplar de animal, aliás - em meu encalço. Alegrava-me o fato de haver a possibilidade de estar se aproximando de mim o fim de minha incoersível solidão. Aquele homem de quem apenas pressentia a aproximação e e percebia a camisa negra, poderia ser uma caixa de ressonância onde minhas palavras não resvalassem ou se perdessem. Eu poderia aceitar o seu assédio mudo e insistente.
Teria o direito de perguntar simplesmente, embora anciosa:
- Você é um homem inteligente? Será Capaz de me ouvir? E mais que ouvir, me entender?
Imagine, doutor, se ele disese que sim? Poderia dali responder pelos meus atos? Ah! não, doutor. Não seja homem agora. Volte a ser minha bússola e não insista em dizer - ou pensar - que no íntimo eu estava desejando a aventura, o homem, o corpo com o qual eu poderia misturar o meu e compor minha necessária e urgente sinfonia. Sou capaz de jurar que nem por uma fração de segundo essa idéia me possuiu. Não estou mascarando a realidade, doutor.
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