sábado, 5 de maio de 2012

Posso me sentar, doutor?


Então doutor... Eu não sei ao certo sobre o que eu quero falar... Apenas precisava vê-lo, liberar essa coisa presa dentro de mim...
Não, não sei dizer exatamente o que é. É como se eu fosse um gato e tivesse engolido uma bola de pêlos. E agora estou frustrada porque ela não quer sair de mim. É, é uma bola de pêlos doutor, que nem as dos gatos. Sabe?
É, eu gosto muito de gatos sim, tenho alguns. Prefiro mesmo, eles não mentem! 
Não doutor, eu sei que eu não sou um gato. Longe de mim entrar nesse nível esquizofrênico de angústia. É que tenho me decepcionado bastante com as pessoas ao meu redor... Já me sinto melhor com plantas e animais do que perto de seres humanos mesmo. Não, não sou sociopata, eu tenho muitos amigos, muitos mesmo. O problema é que eu estou um pouco enjoada de tudo isso. Essa coisa de sair e zoar e toda essa merda só me deixa mais frustrada. Claro doutor, tô dura. Fico sempre na merda. Abando os outros... É foda.
 Emprego? Sei atender telefone... Sei, sei lá, várias coisas... Ok, eu assumo, não sei se aguentaria um emprego. É, não quero mesmo. Prefiro sim, doutor. Pelo menos eles pagam tudo e eu posso ficar em casa, fazendo nada. Adoro o ócio do dia-a-dia. Não, não vou chegar em lugar nenhum, eu sou maluca. Ninguém me contratou até hoje, por quê perder meu tempo?
 Faculdade? Larguei as duas. Cansei daquela merda, aquel gente me irrita sabe... Não sei explicar doutor, é que... Já disse, tô numa fase de preferir os gatos... Eles não mentem, os olhos deles não fingem nada, eles não escondem nenhum tipo de sentimento, eles não te enganam, não te fazem achar que você é mais do que você é, não te iludem com palavras baratas, eles são amigos verdadeiros.
Homens? Não quero falar sobre isso, posso me levantar? Com licença, até a próxima.

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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Buraco Negro

"Era apenas mais um dia comum quando ela percebeu que, mais uma vez, o mundo tinha parado de girar por alguns segundos. Durante um momento, ela pensou e refletiu sobre como poderia fazer para que seu mundo voltasse a girar normalmente, sem essas pequenas pausas que vinham ocorrendo em seu curso normal. Era dia ou era noite, o mundo parava de girar e tudo ao seu redor desaparecia. Nesses momentos, ela se via emergindo de um buraco negro, como se não houvesse mundo, nem céu, nem chão, nem nada. Era só ela, ela e seu mundo inexistente, ela e seu grande buraco.
O que fazer quando tudo desaba e não há mais saída? O que fazer quando a imensidão engole qualquer perspectiva?"


Há três anos atrás eu comecei a escrever isso e não terminei. Tanto tempo depois, as palavras fazem o mesmo sentido. Havia um grande buraco negro e alguém que não sabia como fugir de sua força, sentindo-se atraída cada vez mais pela força do nada e vendo-se cada vez mais em vias de sucumbir ao vazio. Pois não houve outra alternativa. Minha memória não é mais a mesma que antes. Venho expulsando-a de mim mesma, como que querendo esquecer-me de tudo o que já vivi, ouvi, vi. Perdi. Deixei que minha mente se fosse e levasse consigo todas as imagens de meu passado. Queimando neurônios, apaguei o que não mais queria. Útil? Talvez. De nada mais me lembro. Não posso dizer por quê estava tão incompleta, tão inútil, tão vulnerável e temendo o pior. Pois o pior ainda não aconteceu, disso me lembro bem. 
Ainda estou aqui no mesmo lugar, beirando um abismo mortal que me aguarda sem piedade, eu escolho me jogar ou escolho dar um passo atrás e voltar? Não consigo decidir, a beira do abismo me parece mais confortável. 


Jogando fora dias de existência.